Rauls: como funk transformou estelionatários digitais em personagens de músicas e de série
Como o funk vem documentando a história dos estelionatários digitais, conhecidos como Raul Um dos nomes mais comuns do Brasil virou tema de grandes sucessos d...
Como o funk vem documentando a história dos estelionatários digitais, conhecidos como Raul Um dos nomes mais comuns do Brasil virou tema de grandes sucessos do funk de São Paulo. Raul é sinônimo de estelionato e MCs paulistanos vêm relatando o crescimento vertiginoso dessa modalidade de crime nos últimos anos. O g1 ouviu produtores musicais, MCs e pesquisadores da área de segurança pública para entender a origem do codinome. Não há uma definição exata do motivo de estelionatários, principalmente aqueles que aplicam golpes bancários virtuais, passarem a se chamar Raul. A explicação mais ouvida foi a de que o apelido está ligado ao aparelho que clonava cartões durante transações em caixas eletrônicos, chamados de “chupa-cabra” ou “Raul”. E, para se diferenciarem do nome que ficou mais atrelado ao aparelho, os golpistas escolheram o nome usado por 64,6 mil brasileiros, segundo último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Importante: estelionato é crime previsto no código penal. O artigo 171 diz: Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento. A pena é de um a cinco anos de reclusão, além de multa. Como o funk tem cantado os Rauls? Principalmente a partir dos anos 2010, o funk paulistano vem cantando sobre a vida dos Rauls. Não necessariamente sobre os golpes aplicados, mas como os criminosos usufruem do dinheiro roubado. Nomes como MC Kelvinho e MC Kapela ficaram conhecidos por cantarem, quase que exclusivamente, músicas com estelionato como tema. Um dos grandes sucessos de Kelvinho, “O Corre”, tem 22 milhões de visualizações no YouTube e conta com os seguinte versos: "Os caras que vivem de golpe / Nocaute no Santa [banco Santander] / É nós que é o corre / E os bicos se espanta / A Civil tenta dar o bote / Tá osso ir em cana / Tá pago o acerto / E a vida tá mansa" A reportagem conversou com três MCs e um produtor musical. Todos pediram para conversar em off com a reportagem, pois temem represálias da polícia e uma possível associação ao crime. Segundo os ouvidos, falar da vida dos golpistas era um nicho dentro do funk. Antes, poucos MCs colhiam o retorno de cantar as dinâmicas do estelionato. A partir dos anos 2020, com o crescimento dos crimes cibernéticos, cresceu também a quantidade de funkeiros que decidiram falar sobre o tema. “A molecada mais nova quer surfar na onda. Se na época do funk ostentação se falava da marca de roupa X ou da moto Y, hoje o negócio é falar dos Rauls, não só pelo crime em si, mas a vida que eles levam por conta dos golpes”, explica um MC. “Nós estamos na favela e a gente convive, mesmo que indiretamente, com essa realidade. Somos iguais a roteiristas de filme. Nós ouvimos e adaptamos histórias da vida real”. Rauls como fenômeno cultural Com o funk dominando as plataformas de streaming, o assunto Raul invadiu os charts. Lançada em 2024, “300 no 7”, canção de MC GP, MC J Vila e MC Luuky, é um dos maiores sucessos temáticos. A canção faz uma espécie de passo a passo da vida de um Raul: Após arrancar 300 (mil reais) no 7 (171), o personagem retratado vai até uma balada e gasta parte do dinheiro na sala VIP do local. A introdução, cantada por GP, diz: “Arranquei 300 no 7 / Nós que faz e acontece / Busca as duas no flat / E joga na Macan [modelo de carro da marca Porsche] / Ativei o modo esquece / Travei seu cartão black / Gastei lá no S, quero só Macallan [marca de uísque]”. Ele continua: “E nós invade as balada de uma forma diferente / Os menor deu uma contada e deixou lá no Mahal [balada na zona sul de SP] / Show do IG no Vitrinni, nós pega a sala VIP / Hoje cês tá com os bigode, donos da capital”. Yuri De Lucca Dinalli, diretor de A&R e Marketing da GR6, maior produtora de funk do país – e que tem no seu catálogo todos os MCs citados nesta reportagem e vários outros que abordam o tema – explica que, se você pensou num funkeiro de sucesso hoje, você pensou em alguém que já falou sobre estelionato. "Falo sem medo de errar: hoje, os 30 principais artistas de funk, em algum momento, falaram sobre Raul, nem que seja numa linha. Mas acredito também que esse assunto já está sendo explorado à sua exaustão”. Depois do sucesso no campo musical, o tema dos Rauls vai chegar ao mundo das séries. Em outubro de 2025, a Netflix anunciou Rauls, uma série criada por Kaique Alves, Konrad Dantas e Felipe Braga, os mesmos de "Sintonia", sucesso de público na plataforma. A empresa não divulgou a sinopse, mas tudo indica que a trama abordará o mundo dos estelionatários, passando pela música. Inclusive, segundo o g1 apurou, boa parte do elenco será composta por MCs - alguns deles com músicas sobre Rauls. 'Tropa dos Raul', música que reúne vários MCs Reprodução/YouTube Como é o estilo Raul? Falar de Raul, no caso, não é só falar do ato criminoso, em si. É falar de toda a cultura envolvida com quem o pratica. Onde e como gastam o dinheiro, quais gírias usam, como se vestem. Um dos desdobramentos foi na vestimenta. Se criou um imaginário de como esses golpistas se vestem, sendo desdobrado também para a versão feminina, as Raulas. No caso dos homens, a vestimenta é com cores mais neutras (geralmente preto), poucos acessórios e uma bolsa transversal de grife. Já as Raulas usam macacão ou jaqueta, que precisa ser acompanhada de uma calça jeans de marca internacional, e, o principal acessório, é a presilha no cabelo. Initial plugin text Outro fator que faz parte da dinâmica de um Raul é onde – e como – gastar o dinheiro dos crimes praticados. Como mostrado nas músicas, os criminosos colocam quantias altas em casas noturnas e bebidas das mais variadas. O funk documentando o crime em SP Desde seu nascimento, o gênero em São Paulo documenta por meio das músicas a dinâmica do crime nas periferias do Estado. No início dos anos 2000, o foco de parte das letras eram os assaltos à mão armada e o tráfico de drogas. MCs como Renatinho e Alemão, Careca e Pixote, e outros ficaram conhecidos por serem nomes do chamado “funk proibidão”. A socióloga Isabela Vianna Pinho, que estuda o tráfico internacional de drogas, conta que durante seu trabalho de pesquisa percebeu que o funk da Baixada abordava o tema nas suas músicas. “As letras têm toda uma relação com a realidade, citam nomes reais. Percebi que, na Baixada Santista, o funk é importante porque documenta uma história”. Entre os anos 2010 e 2012, quatro cantores foram assassinados a tiros na Baixada Santista, incluindo MC Careca. A violência fez com que o proibidão perdesse força e cedesse espaço para outras vertentes, como o funk ostentação. “O proibidão tem público até hoje, mas ninguém quer morrer cantando. No caso dos Rauls, ainda existe uma visão de que quem canta também é estelionatário, mas não tem tanta opressão”, conta um MC paulistano, com mais de 15 anos de carreira. Yuri aponta que casos como o do MC Negão Original, investigado por ligação com esquema de estelionato virtual, confundem a visão do público. “Não podemos confundir: MC é um cronista. Ele narra o que ele vê. Meu trabalho, inclusive, é ajudar com que esse discurso reverbere. Porém, casos como o do Negão Original criam uma ideia errada de que o cantor retrata o que ele vive”. Polícia investiga MC Negão Original por ligação com esquema de estelionato virtual O ‘mundo real’ dos Rauls De acordo com a Ana Clara Klink, doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do tema, o crescimento dos crimes de estelionato virtual está ligado a uma série de fatores, entre eles: o surgimento do PIX, a pandemia e o anonimato envolvido nessa atuação. Ainda segundo a pesquisadora, o público envolvido nesse tipo de crime é de jovens, principalmente entre 18 e 29 anos, com conhecimento razoável em tecnologia. “É um crime que acontece fora do espaço público, de forma anônima, sem o emprego de violência e com valores altíssimos envolvidos. Além disso, existe uma ideia, que é falsa, de que o alvo não seriam pessoas inocentes”, comenta. Os Rauls aplicam golpes das mais variadas formas: clonam cartões e invadem contas bancárias por meio de aplicativos maliciosos. Gustavo Prieto, professor de Geografia Urbana do Instituto das Cidades da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), pesquisa crime organizado e conta ao g1 como o Primeiro Comando da Capital (PCC) ainda tenta entender o mundo dos Rauls. Segundo Gustavo, o setor responsável pela parte financeira da organização criminosa, chamado “setor do progresso”, busca captar os Rauls para dentro da organização, sem torná-los membros. “Esses estelionatários são uma espécie de microempreendedores que trabalham, muitas vezes, com um celular e um computador, dentro da própria casa. Eles funcionam de forma autônoma, inclusive com relação ao ‘procedê’, que é uma espécie de ética do crime. Até por isso, esses criminosos ainda são vistos de forma diferente, até de uma maneira negativa pelos meios antigos”. Outro ponto destacado pelo pesquisador é a forma que o dinheiro conquistado nos golpes é gasto. Ele aponta que existe uma visão errônea de que a periferia é feita, essencialmente, de escassez. "Pensando numa cidade como São Paulo, esses jovens que praticam estelionato conseguem colocar todo o dinheiro conseguido na própria região em que nasceu. Pensando numa região como a zona leste, por exemplo, existem baladas muito caras, shoppings com lojas de grife e todo uma dinâmica de baile de rua, de tabacarias. Consequentemente, essa pessoa que gasta muito dinheiro na quebrada, chama atenção e é vista diferente". A imagem de que o Raul é uma espécie de ladrão de banco 2.0 é muito forte no imaginário. É um criminoso que, por conta do contexto atual, escolheu por dar golpes sem o emprego da violência. A curiosidade sobre como vivem, o que vestem e o que comem transbordou as periferias do estado mais rico do país. Ficou impossível para a arte ignorar os Rauls.